As revelações

Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.

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Aos cinquenta a vida é um conjunto de despojos. Só com muito optimismo podemos concebê-la como linha recta inteira de sentido único e em frente.

Mas podemos sempre procurar ânimo e revelação em pequenas acções como a leitura despretensiosa, a jardinagem e a contemplação dos pássaros, o cuidar dos laços verdadeiros e a audição de música ou a observação de pintura, ainda que geradas por Inteligência Artificial. O que fizer sentido e trouxer alegria a cada um.

A revelação na leitura pode dar-se quando o desapego já se instalou, romance adentro. O desalento respira pesaroso por dezenas de páginas e de repente o regresso inesperado e a troca de olhares da janela para o jardim, a conversa instalada nas poltronas da sala aquecida e o toque aconchegado na cama entre mulher e homem que constroem uma vida insólita. Por estranho possa parecer, a esperança nasce amiúde do esforço e o desânimo do descanso vazio.

A expectativa pode ainda ser crível se acreditarmos que os vestígios de presença dos pássaros nas pequenas árvores da varanda são sinal de que, se as pudermos plantar num jardim, crescerão o suficiente para albergar a passarada. Ou que o grão de bico com massa e carne de um Sábado daqui a dois anos possa ser temperado com hortelã nascida nesse mesmo jardim.

A surpresa pode vir da ténue e progressiva reaproximação de amigos velhos e chegada dos novos. E do desejo que a nova casa de janelas, varanda e jardim virados a poente possa (se, se, se, se…) vir a ser um porto de abrigo aberto a quem nos quer bem.

A abertura de espírito pode estar em aceitar que a tecnologia crie música de intervenção angolana e bossa nova bilingue e nos embale com a mesma leveza do genuíno cantar de rapaziada alentejana. Consentir que duas realidades coexistam: a artificial e a original. Se bem que perceba que um músico ou pintor a sério fique ofendido, tal como me afronta a escrita gerada por IA.

É que me faz sentido hoje. Não necessariamente amanhã, e certamente diferente de ontem, quando as urgências eram a prioridade. Tão balofas e ilusórias. Todavia, os desgostos deixam ainda taças resistentes em pé e pontes de travessia para a revelação da alegria

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