Ontem não escrevi o diário nos moldes habituais. Na semana anterior não fiz leituras sobre Pintura, Política e Filosofia, pelo que não tinha fonte para a introdução. Mas já sabem que a satisfação da dopamina impõe que vá contando a vida. Já o fiz ontem, farei hoje também.
De manhã no gabinete houve troca de mimos. A C., que não trabalha no escritório há três anos, passou por cá e teve direito a um colar de pedras dado pelos três colegas da sala (um deles, seu irmão) para assinalar o aniversário da semana passada. A E. trouxe aos três colegas, como é habitual, o manjerico do ano. Eu fui à Leitaria da Quinta do Paço para trazer três mini éclaires. O ambiente por cá é suave e amistoso.

Esta manhã acordei com vontade de continuar a libertar-me do passado e de inutilidades em casa. Depois da roupa, dos sapatos e da papelada, será a vez de me abalançar aos códigos e livros da faculdade. Passaram quase trinta anos do término do curso. Há 23 anos desliguei-me do Direito. Que sentido faz mantê-los?
Em novita, no meio de muitos devaneios de miúda idealista, sonhei grande. Com megalomania, tive o delírio de grandeza de criar uma integral e moderna compilação das leis — de raiz. Construir uma estrutura sólida legislativa, com as linhas mestras das normas que nos regeriam. Creio que nasceu do estudo do Direito Romano, de que não guardo qualquer memória digna de registo. Foi também no tempo dos sonhos com a paz em Angola, desejo que escrevia nas minhas doze passas de fim de ano.
Tudo isso vai longe. Angola tem dramas, mas vive em paz. Portugal e a Europa estão à beira do precipício, porém não são as leis que nos salvarão (fico a pensar que esta afirmação é tonta, já que as leis e as instituições democráticas são a nossa âncora e nosso escudo de defesa), mas os homens e mulheres que não se renderem ao autoritarismo, ao populismo e ao ultra-conservadorismo. A ver se não me esqueço de na passagem do ano para 2027 desejar juízo aos portugueses. E quem sabe, por milagre, escapemos à mais do que anunciada Terceira Guerra Mundial, já vivida em vários pontos do planeta.
Bom, voltando a pôr os pés no chão. Não vou com certeza dedicar-me às leis, para as quais não tenho vocação nem talento. E ao escrever isto lembro-me do ar desalentado da minha professora de Francês e Português do Liceu, quando comuniquei que ia para Direito. Sabia mais do que eu. Era uma daquelas senhoras conservadoras que raramente me caíam no goto, mas com ela foi muito diferente. Não era só aparência. Apesar da rigidez, era profundamente conhecedora e competente. Respeitava-a, o que não era comum.
Do curso de Direito guardo boas memórias de alguns colegas e professores. E a recordação do gosto pelas cadeiras de Constitucional, Economia, Obrigações, Internacional Público, Trabalho e Fiscal. Tudo passado longínquo. Mas no essencial não foi um caso de vocação.
Tudo isto para dizer o quê? Com lucidez, aquela livralhada não me vai ser útil. Está a mais na minha vida.
Esta semana vou desfazer-me dos calhamaços. Ficarei com alguns alvéolos da estante livres para albergar leituras presentes e futuras.
E telefonei à minha mãe a dizer que estivesse à vontade, se quisesse dar a outra pessoa os livros de Filosofia que tem guardados para mim, a meu pedido — muitos lidos há mais de 35 anos. Fecho também esse capítulo.
As limpezas e arejo da Primavera de 2026 vão de vento em popa.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.
Boa semana.