
Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.
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As lengas-lengas da auto-ajuda e do desenvolvimento pessoal bem nos dizem que temos de aprender a lidar com os altos e baixos da vida. Nada mais verdadeiro. Habituei-me cedo a sonhar nos momentos maus (bom, e nos bons também, o que convenhamos é optimismo desmedido e quem sabe contraproducente). Nas piores semanas da minha vida, sem saúde e com a liberdade coarctada, comprei um baralho de cartas para jogar e distrair outras pessoas nas mesmas circunstâncias e um bloco quadriculado para mim no qual desatei a desenhar sucessivos apartamentos com a tipologia adequada ao tamanho dos projectos idealizados. Imaginando, delineei a casa e a vida desejada, que poucos anos depois se concretizou.
Os sonhos nunca são realistas. Saem sempre ao lado da própria vontade e não são compreendidos pelos demais. Isso interessa pouco. A vida avança, nunca pára e segue em função do que podemos desenhar dentro das circunstâncias impostas pelo exterior. Tendem a aproximar-se mais da realidade, se não os verbalizarmos em voz alta. Como se o Universo dissesse: isto é um segredo nosso; vou soprar os teus desejos nos ouvidos de outras almas terrenas e a coisa surgirá.
Os últimos anos tiveram alegrias e desencantos. E hoje, num dia chuvoso e tristonho, a minha disposição é alegre. Ontem fui para a cama cedo com intenção de ver o debate das presidenciais no quarto e adormeci um minuto depois. Abstraí do que se passou. Os portugueses terão juízo no dia 8 de Fevereiro, resta saber se o terão nas próximas legislativas. Mas ainda é cedo para falar disso.
A imagem do futuro próximo que me enche a imaginação é de um terreiro feito tapete de erva verde bem vivo e tenro sob o qual um longo estendal de roupa de casa branca, acabada de sair da barrela, apanha os raios quentes de sol primaveril. Se querem saber, a imagem que tenho é a do estendal de Valinhas, um dos pontos altos da quinta, com uma vista desafogada magnífica. Recordação de uma infância bela e abençoada que me acompanhará até ao último suspiro.
A vida em criança também teve altos e baixos. Não a tenho idealizado, esquecendo-me das angústias e tristezas dessa época. Mas serve-me de referência por saber que já era quem sou, uma crente num futuro melhor. E valeu sempre a pena acreditar.