

Temo a queda para a filosofia barata, mas sempre me dediquei a questionar caminhos. Hoje, aqui no parque, acompanhada dos pinheiros esguios, das flores campestres rasteiras, borboletas e abelhas, das hidranjas, das pequenas árvores que dão flores da cor das glicínias e cujo nome ainda não pesquisei, a esconder a vista para o mar azul forte, imenso e denso, pensei em como escapar ao deslumbre e em como conter o desagrado.
À semelhança de ontem perto de casa, em que duas gaivotas acasalavam no telhado da padaria Truz Truz, também aqui fui brindada com os vôos rasos e bicadas ternas ou frenéticas, não sei, de dois melros a acasalar. O universo resolve mostrar-me a Primavera no seu esplendor. E duas rolas, entre as muitas que habitam o Parque, seguiram-nos de poste em poste, de cabo eléctrico em cabo eléctrico, na descida até quase ao mar. Deixaram-se ficar mais acima, que não são aves marinhas. Na sua meiguice, não querem confraternização com as gaivotas. Na ideia da minha mãe, umas bichas malcriadas no grasnar. Espernéficas.
Mais do que reduzir as necessidades para passar bem, é preciso seriar o que está ao nosso alcance e tirar o máximo proveito do possível. O permanente fascínio por mais e supostamente melhor, não permite que se viva a felicidade do belo e concretizável. É um equilíbrio delicado de alcançar, o que vai da ilusão dos sonhos à beleza do praticável.
A avidez e a insaciedade vêm muitas vezes associadas ao insuflar de egos balofos, que vivem de excesso de auto-estima e auto-promoção. E é difícil fazer perceber esta ideia nos dias de hoje, se a todo o momento se estimula o egoísmo e a vaidade. Tudo isto anda de mão dada. A sobriedade não está em voga. O trabalho sem auto-elogio declarado ou dissimulado não está na moda.
Se nos acharmos deuses, desejaremos o céu. Ora, a nossa vida é terrena. Ao céu e às estrelas chega-se pela imaginação e pelo engenho, não por convencermos os outros e a nós mesmos que somos senhores do mundo. Daqui decorre a diferença entre ser e parecer.
Depois, há o resto. Como dosear o desagrado pelas formas diferentes de estar no mundo? Como lidar com a valorização do poder? Da bazófia? Da ostentação? É a parte mais difícil: soltar. Compreender que não está nas nossas mãos convencermos os demais do que é simples e verdadeiro. O mais trabalhoso é bastarmo-nos. Será essa a forma suprema de libertação?

