Agenda moralista — Tópico 9











A responsabilidade das escolhas. Quem escolhe ser desonesto e quem opta por promover gente desonesta não pode ter a veleidade de querer ser respeitado enquanto a sua postura no mundo se mantiver falsa e desleal.











Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.


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A liberdade na patinagem no gelo


No dia 8 de Março fazia 21 anos. Ana preparava a última participação no campeonato mundial que ocorreria no final do mês em Boston. Logo pela manhã no quarto do hotel a primeira chamada que recebeu foi a da avó. Parabenizou mimando-a com palavras meigas. E mostrou vontade em transferir dinheiro do presente. A neta foi lesta em recusar e dar uma alternativa que a alegrava mais. Quando chegar a Portugal, a avó dá-me de almoço lulas à bordalesa. Combinado? A avó fechou negócio e riu.


E conta-me. Como estás? A atleta não se fez rogada. Contou tudo quanto ia na alma agora que estava prestes a abandonar o desporto que ocupara o centro da vida durante 15 anos. Começara na ginástica cativada pelo deslumbre das paralelas assimétricas e mudara para a patinagem aos dez anos. Treinou quatro horas diárias durante todo esse tempo. O fascínio dos sonhos de ginasta depressa se converteu em devoção ao trabalho e vontade de vencer. Para trás, lá longe no riso da tenra infância, ficou o prazer pelas acrobacias por divertimento e o puro gozo de voar ou deslizar em liberdade.


Admitia à avó, tomara consciência nos últimos anos das tensões e sombras do mundo da patinagem. Nos últimos jogos olímpicos de Inverno no momento de receber a medalha de ouro, chorou ao ouvir o hino. O coração lacrimejava de alegria e o cérebro chorava de tristeza. Percebeu que o seu treinador, tal como o de outras companheiras de competição, apostavam nelas por projectarem frustrações próprias de quem não tinha singrado no mundo da patinagem. E os jurados não raro inquinavam as notas também por amargura de antigo atleta e em certas ocasiões concertados por interesses difusos que não conseguia concretizar. O próprio público, que gritava e aplaudia, estava preso à cadeira, ao seu lugar.


Ninguém ali era livre. Todos representavam papéis pré-determinados. A União Internacional de Patinagem determinava os programas técnicos e parte das provas artísticas. A patinadora, ainda que muito experiente, usufruía de margem mínima de autonomia escolhendo música e coreografia com o treinador. Queixava-se à avó que a imagem que hoje tinha da patinagem estava muito distante dos sonhos de criança de voar entre duas paralelas assimétricas no terreiro da escola primária entre os risos e as alegrias dos coleguinhas. Agora tudo aquilo parecia soturno. A imagem de liberdade é uma ilusão que esconde anos de sacrifício pessoal dos atletas e toda a carga de ressentimento e amargura das redes que vivem e se alimentam do meio.


A Ana confessava que a liberdade era mínima. Desenhava-se num lampejo de movimento mais arrojado, numa escolha atrevida da música ou coreografia. Mas aos 21 anos sabia a pouco aquele sonho de criança. O impulso por puro prazer de voar ou deslizar tinha-se estragado com a necessidade de ganhar, de provar que era mais capaz — a melhor. A competição roubava a beleza da liberdade Transformava-a num meio para alcançar o brilho.


A avó ouviu-a atenta e rematou. A liberdade é como a democracia. Se reparares, substitui os atletas pelos políticos e músicos, escritores, pintores, futebolistas e demais notáveis. Troca os treinadores e jurados pelos opinion makers dos meios de comunicação social e os consultores políticos e de imagem das redes digitais e blogs de referência e outros influencers. Substitui o público pela população em casa, nas ruas, nas redes digitais. Verás o sacrifício dos primeiros, o ressabiamento dos segundos e a replicação e aplauso da terceira. Todos estão presos aos seus lugares.


A forma de libertação parcial é ginasticar o cérebro e manteres-te independente. Agora que atingiste o topo, quem sabe não está na hora de escolheres uma vida o mais livre possível. Podes ficar no meio a tentar mudar o que consideras errado, fazendo melhor. Ou podes afastar-te do mundo da patinagem, acabar o curso. Arranjar um emprego que te permita independência. E quando voltares ao ringue, deslizar sem redes que te prendam, por puro prazer.


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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.






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