O divertimento à custa do outro, em regra, parte da ignorância e da presunção de quem se envaidece facilmente consigo próprio.

O fado
Ali estava envolvida no sobretudo preto levemente encostada no cipreste do adro da igreja junto do murete do cemitério. Lá dentro quatro lâmpadas modernas cobertas a plástico vermelho translúcido velavam o corpo do colega de curso morto há quarenta e oito horas. Paragem cardíaca súbita. A meia voz os comentários habituais de surpresa. Afinal, um antigo desportista, que mantinha na maturidade moderada actividade física, contenção alimentar e vida familiar e social equilibrada. Nada expectável, aos 73 anos. Muito novo, dizia a maioria presente, em média mais velha.
Conversava com outro antigo colega, que começara e acabara o curso uma dezena de anos antes. Ouvia-o pensando: nada muda. Ao longo da vida estivera com ele uma vintena de vezes e conhecia o repertório. Apoiado num guarda-chuva imponente, de varetas reforçadas e punho de madeira, com a logótipo da marca destacado no tecido assedado.
Inevitavelmente a conversa resvalou para trabalho. Ela falou no último projecto, uma série de ilustrações imaginárias sobre cidades africanas, desenhada meticulosamente à mão, a caneta Bic preta. Fazia parte de um percurso que já integrara o imaginário urbano de cidades sul coreanas e japonesas. Falou do gozo de sentir a caneta na mão, desde os primeiros desenhos da baixa do Porto, desembestar caminho e idealizar cada edificação pelo país e mundo fora. Confessava as dificuldades, as limitações. E inseguranças. E o prazer em mergulhar naquele seu espaço de liberdade feito de traços da malha urbana planetária, na ponta da Bic preta presa pelos dedos, agora em exposição itinerante entre os seis continentes. Nas quais não estivera presente, limitando-se a enviar os desenhos e maquetes. Não explicou, mas as viagens, tal como a música, os filmes, os livros, eram para si fonte de inspiração, jamais troféus.
Sem perceber a própria pretensão e com viva concordância o amigo começou por aumentar cada insegurança dela e corrigiu: cinco continentes, deixando a Antárctida de fora. Depois falou das encomendas que recebera do ministério da educação. Enalteceu o próprio talento. Gabou-se das menções que várias figuras públicas fizeram ao seu trabalho. Explicou como dirigia e dava formação às equipas que nos últimos anos tinham ganhado os concursos públicos para a requalificação do parque escolar. Em poucos minutos enunciou meia-dúzia de nomes de amigos com percurso de sucesso. Mostrou-se íntimo de todos, contando pequenas anedotas de convívio em viagens de grupo restrito e de almoçaradas em restaurantes em voga.
Dirigiram-se ao interior da igreja, onde o velho colega tropeçou no degrau e embateu no caixão enfaixando o guarda-chuva num dos suportes das lâmpadas. Recompôs-se rápido, desculpando-se com as dificuldades de visão e seguiu directo para apresentar as condolências à viúva, lançando-lhe um sentidíssimo: Muitos Parabéns. Corou até à raiz do cabelo, abafando o disparate com uma frase da praxe e fugiu rapidamente dali arrastando consigo a arquitecta das canetas Bic para se esconder atrás das japoneiras do ajardinado lateral da igreja.
Desviando a atenção de si e dos sinais que o universo lhe dava, continuou a conversa com a velha amiga, que mal tempo tivera para uma palavra aos doídos, nem para se refazer do absurdo a que assistira e que compreendia bem, por também ter acessos de atabalhoamento. Com paternalismo mostrou pena pela ausência dela nos encontros regulares da seita. Deu-lhe conselhos. Sugeriu que usasse canetas Rotring, como a colega revelação que começava a destacar-se nos círculos das recomendações. Ou Pelikan, como a velha colega casada com um dos arquitectos com mais prémios e menções no país.
Protegida pelo sobretudo negro sorria e elogiava o talento de tão esmerados artistas, sem conseguir contudo conter uma ou outra alfinetada de verdade.
Para dentro recordava como há quarenta anos o agora colega requebrado sobre o chiquérrimo chapéu-de-chuva, num jantar académico escolhera a sua futura mulher. Dedicado a comentar, com quem não desconfiava tivesse discernimento para distinguir trapaceiros de gente honesta, uma a uma as colegas presentes catalogando quais as que provinham de famílias com maior fortuna. Se viessem com nome sonante, tanto melhor, mas era pragmático e ambicioso, sabia o que desejava. Não era bem educação ou apenas pedigree, queria sucesso. E se possível que fosse esbelta. Isso do amor, era absolutamente secundário. Haveria de escolher entre as presentes uma delicada e tímida filha de empresário de sucesso.
Lembrava como a colega da Pelikan, fria e calculista, casara com o velho arquitecto, ajudando a disfarçar a sua fama e proveito de assediador e agressor sexual, na esperança que começassem a olhar para os seus esforçados desenhos e projectos, sempre rigorosos em termos técnicos e sem um pingo de arte. O que conseguiu com amplo aplauso dos amigos do marido, contentes com aquela parceira cúmplice e prontos a premiá-la. Ou como a revelação da Rotring, fazia o género da self-made woman, sem ponta de talento e pródiga apetência para a replicação de todos os lugares-comuns dos arquitectos de renome. Os quais mencionava em público à primeira oportunidade para se fazer notar, com referências de maior apreço e familiaridade.
Agarrado ao seu guarda-chuva de varetas de fibra de carbono, na presença dela ficava condoído pelo fracasso. Coitada, usava canetas Bic e não participava no fulgurante sucesso da seita. Já na sua ausência havia cochichado com vários amigos que era uma pena, essa ridícula mania de independência e a falta de noção da realidade. Era anedótico. A velha amiga estava convencida que era genial, pobre diaba. E riam do caricato destino.
Ela despedia-se com um beijo e alguma ternura pelo antigo colega, e magicava nos últimos desejos: ia aproveitar ter tirado o dia de férias para comprar mais uma caneta Sakura para os trabalhos especiais — deixara de usar as Pelikan aos vinte; deixara de usar as Rotring aos trinta — e começar a investigar onde mandar fazer o armário de plantas para enfiar todos os seus múltiplos não talentosos trabalhos.
E ao entrar no Uber já ria alto. Gargalhava sozinha, para espanto do motorista, com quem foi a conversar animada até à rua da Picaria acerca do colega que morrera na antevéspera. Contava ao condutor que era raro ir a um enterro, já que essas festas e encontros sociais deixaram de fazer o seu género na casa dos vinte, mas aquele amigo era delicadíssimo com todos e merecia ser lembrado.
Em casa, já na cama com o marido, voltava a rir à gargalhada contando como o velho colega que encontrara no enterro era rotundamente surdo aos sinais do universo.
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