Agenda moralista — Tópico 2





A influência discreta. Por revelar. E o exibicionismo das referências das redes de influência.




Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.









Retiro para descanso


Fazia férias da azáfama sofisticada. Os cordéis nos dedos mexiam ao sabor ora da sensatez, ora do acaso: a vida dos governantes lá ia decorrendo tão desconcertada como os movimentos dos dedos despidos de adornos e de esmalte nas unhas. Por meses estaria longe daquele tédio.


No centro de comando da cidade deixara as centenas de decisores e os milhares de bajuladores sempre em bicos de pés, prontos a mostrarem-se íntimos do poder. Repelia, toda aquela vulgaridade e falta de espinha dorsal. E pensar que ainda havia deslumbrados que, vivendo da ganância, cultivassem o protagonismo e achassem o poder sedutor. E imaginar que se julgassem grandes jogadores e estrategas. Capazes de mudar o rumo do mundo. Quando nem sequer faziam por compreender a Natureza.


Foi a casa preparar os sacos. Levava uma mochila às costas e uma pequena mala na mão. Despertara a curiosidade da vizinhança. Afinal chovia há semanas; na cidade tudo era adverso. Adivinhava-se o aluimento da urbanização amarela, mas ainda ninguém tomara a iniciativa de fazer as malas. Um vizinho mais afoito usou a aplicação para entrar no telemóvel dela e conseguiu ver para onde a levava o Uber que havia chamado.


No mapa estava assinalada uma antiga cidade abandonada há quase duas décadas por desconfiança de contaminação nuclear. Um boato infundado levara ao abandono em massa pelos locais. Mas a urbe mantinha todo o esqueleto em pé, apesar da degradação e das vias rodoviárias de acesso estarem em franco mau estado.


Vivera nessa cidade meia dúzia de anos e a sua única intenção era pousar a mala na antiga casa, pouco mais do que uma arrecadação, para desocupar espaço no apartamento actual. Deixou a mala, fez o percurso a pé até à localidade mais próxima, apanhou um táxi para a levar à estação ferroviária e tomou o comboio que a levaria ao destino de férias.


Uma comunidade na encosta de uma montanha granítica, com vista panorâmica sobre a planície invernosa e verdejante e para um rio cujo caudal engrossara e a corrente tornara desaconselhável a navegação. Ali não conhecia ninguém próximo. E, como em todo o planeta, chegavam as comunicações satélite, com dificuldade, ao contrário dos cabos acessíveis apenas a privilegiados das grandes cidades litorais.


Lia os jornais locais e internacionais e demais literatura produzida pela comunidade regional e planetária. Trocava leves acenos e curtas palavras com habitantes e turistas. As regras eram bem definidas e havia o hábito de cumpri-las. Começava a manhã por nadar na piscina comunitária, passava pelo mercado, preparava as refeições do dia e usufruía de paz. Férias bem passadas.


Num desses dias de feliz pasmaceira recebeu chamadas telefónicas a dar conta que a vizinhança da urbanização amarela se tinha mudado quase em peso para a suposta cidade contaminada. Sentiu-se condoída por perceber a clausura colectiva a que se tinham votado, e um pouco responsável pela debandada. Bem sabia: há anos o seu telemóvel era espiolhado. Todavia não imaginara que se seduzissem por aquele lugar para viver. O que fazer? Não tinha mão na própria influência. Respirou o ar puro da montanha, agradeceu a vista desafogada e congeminou: mais tarde mudam-se outra vez em bando, como gostam.


À tarde dormitava na rede de descanso no quarto mezanino da pequena casinhota que alugara, com a janela do sótão a ser picada pela água da chuva e a formar veios e correntes onde imaginava minúsculos peixes prateados vindos do céu, capazes de sobreviverem à aventura da queda ancestral para chegarem ao sopé da montanha e ao paraíso: o rio.


Gostava de estar em silêncio a ouvir o bater dos jactos de água da chuva, mesclado com os estalidos das achas de lenha a arder na salamandra lá abaixo junto à mesa e sofá. Acordava uns minutos, lia uns parágrafos e voltava a adormecer, depois de roer os rijos biscoitos de limão comprados no mercado e bebericar o café morno.


Numa dessas tardes, mais desperta, escrevinhou este episódio e ao terminar riu consigo da ideia de biruta que dava com o apontamento do telemóvel espiado. Divertia-a. Se tivesse escrito apenas que contara aos vizinhos a intenção de passar na cidade contaminada, perderia a graça.




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