Agenda

- é mentira, não é agenda -

Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.

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Agora é assim, por golfadas. Ora passa um punhado de dias sem qualquer vontade de escrever, ora vêm em catadupa ideias para espraiar. Há pipocas, mas falta o tempo por isso abro mais uma agenda.

  1. Dizem as más-línguas mui espertas que uma pessoa inteligente não se deve explicar em demasia. Na qualidade de calhau continuo a bater nas mesmas teclas justificativas. E a repeti-las post após post, parágrafo após parágrafo. Num tempo em que a maioria gosta de explicar aos outros como se devem comportar, o que devem comer ou ler, quem devem ignorar ou gostar, insisto em testemunhar como vivo, penso e sinto. Uma maçada entediante sem nomes e lugares para importunar, ofender, corromper, bajular. Muito aborrecido. Escrever sem intenção de causar frenicoques. Inadmissível. Ah, e essa necessidade infantil de validação, dizem as luminárias. Escapa-lhes a realidade. A falta de ser compreendida. E a falta de vontade de comprar simpatia. Ah, essa repetição, essa obstinação, essa entediante necessidade de escarafunchar a alma. Falta-lhes a pimenta da novidade da vida alheia; chamam-lhe romantismo, interesse, sal da vida. Têm carência de intriga e maledicência cliché, da que gera sentimento de irmandade, de tribo. Como é possível viver sem motivo? Sem a aparência de uma notícia nova e emocionante para espalhar. Passe a redundância.
  2. Os gurus das audiências promovem essa pimenta que descreve com minúcia em quantas camas dormem os protagonistas, quantas espécies de peixe e castas de vinhos servem os gastrónomos com mais pedigree, quantas opiniões convenientes e análises quadradas vendem os avençados dos corredores do poder, quantos livros de ilustres de algibeira acumulam nas estantes a troco de uma laracha e publicitam com referência de fogacho, quantas doenças da moda achacam os protagonistas, quantos passeios dos tristes, quais domingueiros alargados, se fazem para mostrar mais serviço do que arejo. E elencam, é essencial elencar filmes, livros, mulheres, canapés, teses, amigos, peças de teatro, artigos dos jornais, programas de rádio, desde que digam rigorosamente o mesmo, o visto. Desde que não tragam nada de novo, nem de essencial, apesar de sempre aparecer um elemento dito sangue-novo, enaltecido como pedrada no charco. Claro, desde que diga exactamente o mesmo. De preferência uma futilidade com pretensões literatas.
  3. A linguagem quer-se depurada, aconselham os sábios. A escrita densa, singular, precisa, dizem. E vamos ver. Singularidade zero. Densidade nenhuma. Precisão, dão-se alvissaras a quem a encontrar. Vidas a mimetizar padrões de larachas ditas literárias, seja pela forma da linguagem, seja na substância nas ideias. Uma monotonia de convenções inférteis repetidas ao longo das décadas. E exponenciadas à exaustão desde que escrever é moda com audiência acéfala de seguidores a trocar cromos. Tédio, tédio, tédio. Ideias feitas disfarçadas de matéria literária. Ai, vou falar da condição humana, ai, vou escrever sobre a morte, ai, vou regressar à infância, ai, vou zurzir no amor. Ou ideias comerciais para rentabilizar produto. Ai, vou aproveitar essa polémica no espaço público para fabricar um livro. Haja pudor. Vergonha na cara. Não se força literatura, nem opinião, nem jornalismo a mimetizar chavões, a copiar os outros e a usar a Inteligência Artificial para produzir livros, artigos, posts e comentários. Já nem falo da questão da honestidade. Falo em tédio. Tédio monumental. Enjoo total.
  4. Concretize, menina. Concretize. Suba ao palco, queremos espectáculo. Queremos o sangue e a emoção da má-língua. Queremos guerra. Gostamos deste estado em que o mundo está. Trabalhámos para ele a defender o direito à ofensa. Vá, dê o seu contributo. Esfole o seu bode expiatório. Queremos molho, não a sensaboria da sua vida de vizinha do 2° Esquerdo. Diga-nos com quem foi para a cama a sua amiga x e mande-nos um e-mail a criar intriga mentirosa sobre actividade profissional ou vida pessoal de alguém com relevo e peça-nos batatinhas. Queremos tê-la na mão, é isso que transforma uma mulher vulgar numa interessante, estar à mercê da oportunidade. É disso que é feita a nossa vida. Agora o quotidiano banal não nos diz nada. Tanto faz que esteja viva ou morta. Por falar disso, já pensou no suicídio? Recomendamos sempre isso a todos quantos digam verdades inconvenientes; aprendemos com o facínora russo. Temos tanto amor à vida como o terrorista islâmico ou o regime norte-coreano, mas somos grandes defensores dos nossos ocidentais e exclusivos direitos humanos; nunca esquecer o principal: direito à ofensa. Ámen.

Isto não ficou nada parecido com uma agenda. É o que dá escrever ao Deus dará. E ainda por cima a insistir no de sempre, o que nem se percebe bem o que é: nem nome de rua, nem data, nem apelido e aniversário ou óbito. Nem elogio, nem denúncia com placa de identificação para colher em seguida o dividendo do serviço prestado. Nada que se possa pegar, hastear bandeira ou vandalizar. Que coisa estranha isso da ideia essencial que não se parece com nada senão a defesa bacoca de princípios básicos de vida. Uma maçada sem audiência. Se ninguém quer saber, é porque não presta. Com certeza é hipocrisia. Não percam tempo. Corram atrás do sangue, da emoção, dos nomes, dos factos distorcidos, da intriga.

Ide, gente, ide. A felicidade da bela adormecida está ao vosso alcance.

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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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