Imagem gerada pelo Gemini a meu pedido.
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Abri o jornal português que costumo ler e dei uma vista de olhos pelos agregadores de notícias internacionais que juntei aos favoritos nos últimos dias. O peso da constipação no corpo faz-me prender a habitual verborreia. Passo do cinquentenário do centro comercial da minha infância para as declarações alarves do Secretário de Estado norte-americano sobre o Tribunal Penal Internacional. Quando tudo é visto como transacção não se pode esperar sanidade. E é esta a reacção à atribuição do Prémio Nobel da Paz a quem teve a coragem de chamar genocídio à mortandade indiscriminada de um povo às mãos de um regime de facínoras que faz envergonhar os compatriotas que sofreram igual destino há oitenta anos. O desplante sobe de tom e chegamos à obscenidade de nos Estados Unidos se preparar um fuzilamento em directo nas televisões e redes sociais. Tudo é aceite neste tempo absurdo a que regredimos. No país vizinho parte da população revolta-se com uma injustiça patente de que o mundo adormecido e privilegiado não quer tomar conhecimento, desculpando o escalar de medidas no sector da habitação cada dia mais mercantilistas, cada dia mais desumanas. Por cá as inteligências raras, que apoiam as políticas ultraliberais nacionais neste domínio, argumentam com casos particulares que não representam a realidade no todo; razões que fariam sentido há vinte anos e que perderam totalmente a validade. Por cá as vedetas do comentário continuam a fazer de conta que ficam chocadas com o agressor Trump — que acordou hoje comprar diesel ao amigo facínora Putin -, e as desumanidades pelo mundo fora, mas convivem bem com todo o tipo de podridão desde que dissimulada, à boa maneira portuguesa. Em dez anos o panorama do comentário português mudou de forma radical. Desapareceu do radar a supremacia de esquerda radicada nas últimas décadas e qualquer espaço televisivo ou digital com audiência requer agora a presença maioritária da direita. O CDS-PP, pequeno partido quase sem representação no Parlamento, continua a perorar no espaço público como se fosse dono do país. A extrema-direita assumida grita. Os liberais cheios de si tratam de tirar vantagens pessoais a pretexto de fazer de conta que sabem o que é a economia de um país. A direita dita moderada, salvo raras excepções, está entregue a vendidos. A esquerda mansa que está autorizada a falar é descredibilizada. É tempo de crise civilizacional — o tempo dos oportunistas e dos reaccionários no poder.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.