Diário 5 de Outubro de 2026

- assombro da arte ou cansaço do mundo -

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Leituras no Medium

Contrariando o estado de espírito sombrio e depois de muito me debater, esforço-me e venço o desânimo e a angústia, com o Nuno a dar-me ânimo e o Ritz a miar em arrufos doces. Continuo a saga de diários. Este com atraso e a abrir com Vermeer. Já sabem que podem ler o artigo que deu origem ao meu resumo e observar a tela interpretada no separador Activity.

A pintura eleita pelo autor do artigo que li na semana passada é O Astrónomo, de Vermeer. Sai um pouco do registo das cenas domésticas pelo qual o pintor é mais conhecido. Na tela vemos representado um cientista, vestido com um quimono ao estilo japonês, rodeado de instrumentos astronómicos: globo celeste, astrolábio e livro de astronomia. O autor do post chama a atenção para o gesto do astrónomo com a mão estendida sobre o globo sugerindo hesitação num misto de ambição científica e de espanto perante o universo, como se o conhecimento alcançado não se deslaçasse do desígnio divino — qual assombro científico. São explicados também pormenores relevantes como o de no globo celeste estarem representadas não apenas as constelações catalogadas na Antiguidade, mas também as cartografadas à época, o que sugere que a pintura terá sido uma encomenda para celebrar o conhecimento científico de vanguarda. Ou o facto da página no livro de astronomia começar com o papel de Deus na procura de conhecimento. Há mais detalhes no artigo que recomendam a leitura.

A vantagem do atraso

Nos últimos anos tenho tomado consciência do regresso a um atraso sistémico da bem-pensância portuguesa. Era suposto que com a globalização e o mundo das redes digitais os vasos comunicantes entre primeiro mundo e o resto do globo se fizessem sentir, sobretudo no nosso país, como tantas facilidades tecnológicas e de comunicação. Mas não é isso que verifico seja em movimentos conjunturais, seja em termos estruturais do pensamento. As ondas de opinião e o arcabouço de ideias chegam tarde a Portugal. Reparei por exemplo como a constatação do domínio manipulador das oligarquias das multinacionais tecnológicas demorou a ser percebida ou como a pertinência do pensamento de Hannah Arendt ainda é ignorada ou desconsiderada.

Por vezes dou por mim a cogitar se isso é ou não mau sinal. Penso: sim, é certo que estando atenta à imprensa europeia e à opinião no espaço público norte-americano amplio drasticamente o meu conhecimento. Aliás, estando atenta à produção de conteúdos digitais brasileiros o mundo também engrandece, ao contrário do que julgam mentes obtusas que só conhecem o lixo que vem do Brasil. É certo que é positivo, todavia fico a congeminar: sim, mas 77 milhões de norte-americanos votaram em Trump em 2024, e este ano os brasileiros continuam sujeitos à escolha entre Bolsonaro (filho) e Lula. Será que adianta um certo arejo de ideias e mais amplitude de mundo? Ou compensa a tacanhez portuguesa? A ver vamos.

Dia-a-dia

As notícias dão conta de um mundo tão negro que apetece falar de arte e abstrair do resto. Da forma como Trump comprou a traição venezuelana, como pode sair vitorioso no Brasil, e como desestabilizou ainda mais o Médio Oriente, traindo a confiança do povo iraniano, e como celebra com cumplicidade obscena as atrocidades do regime assassino de Netanyahu. E como a Ucrânia continua a sofrer às mãos do facínora Putin.

Apetece abstrair. É uma certa cobardia. Começo a perceber melhor os pintores que se recolhem na floresta andina, ou os escritores que cortam em definitivo com a televisão, ou os músicos que não lêem jornais.

No Sábado e no Domingo vi, na companhia do Ritz, vídeos de YouTube sobre movimentos artísticos e interpretação de pinturas célebres. Mas ainda estou com preguiça de arrancar o novo projecto de escrita.

Nos últimos dias pontuaram os amigos. Na quinta-feira e no Sábado conversei com a T. Apresentou a dissertação de mestrado sobre ensino técnico na Primeira República. Estava muito em baixo por uma distracção tê-la feito não cumprir o prazo de entrega tendo de pagar novas propinas, o que é pesado para quem está no desemprego. Para lá disto foi um doce, incluindo-me nas referências como amiga nos agradecimentos, o que me enterneceu.

Na sexta-feira o J.A. veio lanchar connosco, mergulhado nos seus planos de escrita e nas apresentações de livros. O último Contos de Toga, sempre com interesse para quem leva uma vida em peripécias na advocacia. O cardápio do lanche foi repetição do último em família, tirando a fruta - desta vez melão e romã -, não vario muito, senão a bebida, no Inverno chá, no Verão vinho verde. A prosa foi amena e delicada com piano pelo meio.

Sábado telefonei ao meu primo M. e estivemos, como é costume, mais de duas horas a conversar. Ao fim de 26 anos de docência de Filosofia, conseguiu fixar-se numa escola por quatro anos. Pela primeira vez está a entrosar-se nas relações com os colegas. Pusemo-nos ao corrente das nossas vidas como fazemos desde bebés.

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Obrigada por terem lido. Boa semana.

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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