Vôo de pássaro sobre a Filosofia

- propostas para uma vida colectiva mais justa -

Notas prévias

Em 2021, no blog Comezinhas, propus-me escrever um vôo de pássaro sobre a Filosofia após leituras breves de pensadores e correntes. Acabei por não fazer o que prometi e, como muitas vezes acontece, volvidos anos, cumpro com atraso. É com gosto que faço agora o meu vôo sobre a História da Filosofia, que mais não é senão um conjunto de apontamentos.

E faço-o no momento em que tinha apalavrado o início do périplo de escrita acerca da História da Arte. Típico. Tudo me foge aos propósitos. Mete-se sempre qualquer coisa no meio do caminho traçado e deixo-me guiar pelo vento, aproveitando os ensejos de momento.

Por agora fica a resenha da Filosofia, a da Arte será mais trabalhosa e estender-se-á, presumo, por dois anos.

Para quem escrevo?

Em primeiro plano, para mim mesma. Desculpem a franqueza, mas é isso mesmo. Tenho prazer em estudar para consumo próprio. Apesar de muitas ansiedades e angústias, sou feliz comigo mesma quando consigo arranjar tempo e disponibilidade para mergulhar no estudo. Um tempo e uma disponibilidade raros na minha vida, intercalados não só com correrias e ansiedades, mas também com a ociosidade dos devaneios.

Em última instância escrevo para quem tiver paciência para ler e, claro, faço muito gosto em ser lida. E agradeço a generosidade de quem faz o esforço.

Já sabem que a abordagem será singela; com base nas minhas leituras de breves histórias da Filosofia e audições de vídeos alusivos.

Muitas das ideias propostas pelos pensadores estão simplificadas, uma opção que considero recomendável num tempo em que se esmiúça tudo até ao absurdo com o pretexto de alegado rigor. Este excesso de ambição é contraproducente e inviabiliza o próprio conhecimento.

A leitura deste post demorará onze minutos, pelo que não é recomendável continuar a quem tem pouca paciência.

Na escolha dos filósofos juntei aos ocidentais três orientais.

Perdoem-me as minúsculas onde deveriam estar maiúsculas, mas resolvi simplificar a abordagem das obras, conceitos e correntes.

A base da resenha é a visão da Filosofia não só como a procura racional e crítica de compreender a realidade e o conhecimento, mas também como proposta de uma vida comunitária mais justa.

Confucionismo — filosofia política, filosofia social e ética das virtudes

Este ambicioso vôo de pássaro tem muitos ângulos mortos de visão. Começo logo por saltar o Mundo Antigo pré-socrático na Grécia. E antes de ir a Sócrates, passo pela China.

Com Confúcio, 551–479 a.C., aprendemos o cuidado com os outros e a sociedade. Procurou apurar como é que as pessoas poderiam viver em harmonia, estudando o comportamento humano. Como cada um trata o próximo e como a sociedade se organiza em paz. Como se restaura a ordem e a justiça. Respondeu que a educação é o caminho para transformar a sociedade e que a virtude e a sabedoria não são inatas, antes cultivam-se com o tempo.

Além do dever de humanidade, os rituais ou normas e as boas maneiras ajudam a organizar a vida em sociedade, que para ser uma grande família com harmonia deve guiar-se pelo respeito e pela responsabilidade entre as partes. Pelo exemplo. O líder justo é imitado de modo natural pelo povo. O corrupto ou violento espalha o caos. Logo, o poder só é legítimo quando serve ao bem comum.

Não centrou o seu pensamento nas respostas sobrenaturais. Acreditava que a felicidade depende da capacidade de viver em paz consigo e com os outros.

Filosofia socrática — método socrático e a virtude como conhecimento

Sócrates, 470–399 a.C., trouxe-nos a arte de perguntar, de despertar as mentes através das perguntas na vida pública ateniense.

O método socrático consistia em observar, questionar criticamente e expor contradições ou inconsistências no pensamento e nas acções, incentivando a reflexão sobre as crenças de cada um. Procurava vidas que fizessem sentido, incutindo o autoconhecimento; o questionamento sobre si mesmo.

Recusou abandonar os seus princípios, pagando a integridade com a sua própria vida.

Idealismo platónico — teoria das formas, racionalismo, consciência e curiosidade

Platão, 428–348 a.C., ensinava e promovia diálogos como formas de examinar crenças e contradições. E, tal como Sócrates, propunha a Filosofia não apenas como estudo, mas como prática de vida.

Defendia que era preciso ir além das aparências, além das sombras, daí a teoria das formas: as ideias perfeitas. Simplificando a ideia pode dizer-se que propunha a justiça e a verdade como conceitos absolutos que podemos tentar compreender apesar de não conseguirmos atingir. Isto é, defendia a profundidade; procurava a essência das coisas por oposição à aparência superficial.

A sociedade justa depende da existência de governantes capazes de se guiar pela sabedoria.

Realismo aristotélico — filosofia natural, empirismo moderado e ética das virtudes

Aristóteles, 384–322 a.C., era detentor de um olhar curioso e analítico sobre o mundo natural. Ao contrário de Platão não via a verdadeira realidade como uma entidade para lá do mundo sensível. Defendia que o conhecimento começa nos sentidos (olhos, ouvidos, toque e experiência concreta) e um olhar científico que valoriza a observação e a comparação.

A observação da natureza trouxe-lhe a valorização da moderação, justiça e razão e a visão do mundo como uma experiência viva de povos, culturas e ideias a ser conhecida. E criou as bases da lógica, com as regras para o raciocínio — silogismo.

Com pensamento organizado acreditava que cada coisa possui uma razão de ser. Nos estudos observava, comparava e registava tentando compreender o mundo pela experiência e não só pelo pensamento.

Estudou as cidades e as leis concretas, as vantagens e desvantagens das formas de governo existentes (monarquia, aristocracia e democracia) e via a política como extensão da ética.

Acreditava que a felicidade era resultado de uma vida equilibrada. E a virtude estava no justo meio.

Escola do caminho do meio — budismo, vacuidade e duas verdades

Dando mais um pulo, salto os romanos e os populares estóicos e volto ao Oriente, em concreto à Índia e a Nagarjuna, 150–250(?).

O pensador budista escolhe o caminho do meio, com base no pressuposto do vazio, isto é, de que nada possui natureza própria, fixa e independente e de que tudo surge em dependência de causas, condições e relações. Evita dizer que as coisas existem absolutamente e que não existem; elas existem convencionalmente, ainda que vazias de existência intrínseca. O que corresponde às duas verdades: a convencional e a verdade última.

A comunidade é feita de condições e relações de interdependência. Evitar a pretensão das verdades absolutas favorece a humildade intelectual, o diálogo e o desapego às posições e interesses próprios, criando condições para uma existência menos conflituosa e reduzindo o sofrimento de todos. Visto assim o caminho do meio pode constituir uma orientação ética e política.

Individualmente, como abandono da ignorância e desapego, o reconhecimento da vacuidade e da interdependência de todas as coisas, liberta o homem do sofrimento.

Tomismo — aristotelismo cristão, lei natural, relação fé-razão

São Tomás de Aquino, 1225–1274, fez a tentativa de conciliar fé e razão, criando pontes entre o conhecimento humano e a revelação divina. Acreditava que a razão humana podia conduzir a verdades que não contradiziam a fé cristã ­- a razão pode demonstrar verdades sobre a fé com argumentos lógicos.

A moralidade humana é baseada na natureza e a razão pode ajudar a distinguir o certo do errado. O homem pode viver e compreender a fé através da razão e de conceitos da prática da vida em sociedade.

Racionalismo cartesiano — dualismo corpo/mente, dúvida metódica, fundamentação racional do conhecimento

Descartes, 1596–1650, famoso pela frase: penso, logo existo, ensina-nos que a certeza começa na consciência e na capacidade de duvidar. A mente imaterial distingue-se do corpo material e é capaz de reflectir sobre si mesma.

Procurava as certezas, capazes de criar um sistema de pensamento válido, a partir da dúvida metódica e da razão interna. Pensar criticamente sobre o mundo.

Empirismo lockeano — teoria do conhecimento, direitos naturais, liberalismo

Locke, 1632–1704, procurava as certezas a partir da experiência, afirmando que o conhecimento se adquire através dos sentidos — empirismo. A mente é uma tábua rasa e nasce pronta a ser moldada pela aprendizagem e a observação do mundo.

Defendia direitos naturais do homem e o contrato social. Cada indivíduo possui direitos que não podem ser violados: vida, liberdade e propriedade, sendo o papel do governo protegê-los; se falhar, os cidadãos têm legitimidade para o substituir.

Cepticismo — empirismo radical, questionamento da religião, limites do conhecimento

Para Hume, 1711–1776, todo o conhecimento humano deriva da experiência, dos sentidos e não de ideias inatas — empirismo radical.

Questionava argumentos racionalmente justificativos da religião e a causalidade — não podemos ter a certeza de que um evento causa outro. Defendia que a razão humana não pode provar a existência divina (cepticismo), discutindo as crenças enraizadas. Promovia o reconhecimento dos limites do conhecimento.

Iluminismo — filosofia política, contrato social, liberdade, desigualdade

Rousseau, 1712–1778, acreditava que o homem nasce bom e que as regras da sociedade e as desigualdades corromperiam essa bondade natural.

Questionava o poder absoluto da monarquia e da igreja.

Defendia o contrato social justo: a sociedade deve ser organizada de modo a que os indivíduos concordem com as regras. Deve garantir-se a liberdade e a igualdade, salvaguardando a dignidade e a autonomia de cada um. Defendia a educação livre; a criança deveria desenvolver-se segundo o seu ritmo.

Idealismo kantiano — criticismo, condições de possibilidade do conhecimento e ética do dever

Kant, 1724–1804, que organizou a vida com rotinas rígidas, trouxe-nos o estudo da razão e da moral universal. Com foco na filosofia prática e moral, defendia que as regras deviam guiar a acção humana. Na crítica da razão pura procura estabelecer os limites do conhecimento — até onde a razão pode ir — e na crítica da razão prática desenvolveu conceitos de moral e ética.

Formulou o conceito de imperativo categórico, propondo que devemos agir de acordo com princípios universalizáveis — agir segundo regras objectivas, princípios racionais e universais.

Precisou conceitos do dever — escolher o que é certo — e da liberdade — agir segundo a razão, segundo princípios universais e não inclinações subjectivas.

Pugnando por uma vida consciente, valorizava tanto o conhecimento quanto a responsabilidade pessoal e colectiva.

Idealismo alemão — idealismo absoluto, dialéctica, filosofia da história

Em Hegel, 1770–1831, a história humana segue um processo racional dialéctico. Desenvolve-se através de contradições e da sua superação, em processo dialéctico. Os eventos históricos revelam o desenvolvimento do espírito humano na busca por liberdade.

Acreditava que a liberdade se realizava dentro do Estado e numa manifestação da ética colectiva, através dos princípios universais do Estado.

Filosofia da existência — antecedentes do existencialismo, subjectividade, angústia, escolha, fé

Ao contrário de Hegel, Kierkegaard, 1813–1855, não acreditava que a vida pudesse ser explicada exclusivamente por meio do intelecto. Explicava que essa visão tendia a substituir Deus pela elevação das capacidades do homem apesar da sua incapacidade para fazer juízos de valor objectivos.

Concentrou-se na importância do indivíduo, salientando a centralidade da vontade e da liberdade de escolha. Defendia que a subjectividade é essencial na acção e nos juízos de valor humanos. Salientou a importância da liberdade de escolha por oposição à aceitação cega dos rituais da igreja. Sustentava que era impossível conhecer Deus sem ser por um acto de fé.

Trouxe-nos o conceito de angústia existencial ou ansiedade e aclarou que a liberdade de escolha deixa o homem num estado perpéctuo de ansiedade em relação às responsabilidades. Foi precursor do existencialismo.

Materialismo histórico — materialismo dialéctico e economia política

Se para Hegel a história é um processo racional do espírito, para Marx, 1818–1883, é a acção concreta da luta de classes que opera a transformação material. Sustentava ideias de justiça, igualdade e transformação social.

Abordou o materialismo histórico, desenvolvido mais tarde pelos discípulos, com base na ideia dos movimentos dialécticos hegelianos. A história seria resultado das condições materiais e das lutas de classes — os conflitos sociais entre opressores e oprimidos levam a mudanças sociais relevantes. A sociedade é organizada em torno de quem possui os meios de produção.

Crítica da moral e o super-homem — niilismo e vontade de potência

Nietzsche, 1844–1900, criticou a moral tradicional, principalmente o cristianismo. Defendia que a superação da moralidade da religião assente na culpa seria essencial por restringir a liberdade e o potencial humano. E essencial para afirmar o super-homem, alguém que crie os seus próprios valores e viva de acordo com a sua força e vontade.

Constatou que à medida que a ciência avança, o homem começa a duvidar dos valores e convenções da autoridade e da religião, desembocando num vazio de sentido. Propunha novos valores e a procura de um sentido pessoal na vida.

Escola de Kioto — filosofia japonesa moderna, nada absoluto e experiência pura

Num último pulo a Oriente, e numa visão assingelada, recordo Nishida Kitaro, 1870–1945, japonês que tentou superar a oposição entre “eu” e “mundo”, entre sujeito e objecto, introduzindo a ideia de nada absoluto, isto é, o campo onde todas as coisas existem e se relacionam, sem que esse campo seja ele próprio uma coisa (deixa de ser objecto para ser o lugar onde eu e o mundo existem). É a realidade tal qual é captada na experiência imediata.

Grosso modo, é a aplicação do princípio budista da vacuidade da existência independente das coisas à confirmação de que o indivíduo não existe isoladamente, mas numa relação constitutiva com os outros e com o mundo histórico.

Filosofia da linguagem — filosofia analítica, análise lógica da linguagem

Wittgenstein, 1889–1951, acreditava que muitos problemas filosóficos resultavam de mal-entendidos sobre a linguagem, daí a importância da linguagem e dos limites do que podemos expressar.

Existem limites do pensamento, limites do conhecimento — existem limites para o que podemos expressar de forma significativa. Quando tentamos falar de coisas que vão além da experiência e da lógica acabamos por criar confusão. A filosofia deve clarificar o uso da linguagem.

Abriu portas a que posteriormente se compreendesse que a comunicação molda o pensamento e a sociedade.

Filosofia política — liberdade, acção, pluralidade, pensamento e juízo e espaço público

Termino com Hannah Arendt, 1906–1975, a quem devemos a ênfase na pluralidade política e, no âmbito do estudo do totalitarismo, a expressão banalidade do mal — patente no cumprimento cego de regras ou ordens por incapacidade de juízo crítico.

Centrou a sua filosofia na liberdade e na capacidade humana de agir no mundo em conjunto com os outros. A pluralidade humana é fundamental para a vida política. Estudou a forma como os regimes totalitários do nazismo e do estalinismo destruíram esse espaço de liberdade e de pluralidade, usando a política como instrumento de dominação.

Defendia que, para lá do trabalho, há a acção, a capacidade de agir no espaço público como forma de deliberar e participar na construção do espaço comum.

Reflectiu também na capacidade de pensar e na responsabilidade individual. Na necessidade de pensamento crítico e de não agir apenas movido pelo cumprimento das regras ou ordens impostas. Assumir a responsabilidade é essencial à liberdade.

O ser humano deve procurar compreender a verdade (conhecimento), um sentido (pensamento) e o particular a partir de uma pluralidade de perspectivas (juízo).

Nota final

Esta foi a síntese em vôo da Filosofia que consegui. Depois de, nos próximos anos, me dedicar à História da Arte, talvez regresse à história da compreensão da realidade e do conhecimento e dos contributos dos principais pensadores para uma vida colectiva mais justa. Nessa altura deverei dedicar-me aos filósofos contemporâneos.

Obrigada por terem lido.

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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