
Sem razão aparente questionas o que é importante. Se faz sentido o empenho de tempo e disponibilidade mental nos interesses que te ocuparam os últimos 12 anos.
Dás por ti a ponderar se não será boa ideia um plano B. O que antecipas? Um momento de desânimo face à inevitável constatação de que o mundo e, especialmente, o país, não é justo nem valoriza o mérito. Esta palavra desbaratada pelos que nem imaginam o real peso e significado. Pelos que a invocam cheios de si de forma leviana, habituados que estão a transaccionar a aparência de competência como rótulo de mercadoria contrafeita.
Assentas na ideia de que não há plano B. Vale sim o plano A. O mesmo de sempre. Os mais queridos são a prioridade. Família e amigos próximos. Cuidar das ligações importantes, dando a atenção devida. E tratar os demais com humanidade e respeito. Essa foi uma das grandes lições de herança que recebeste e esperas saber cultivar. Poucos laços, mas sólidos. E respeito por todos sem base no oportunismo.
É evidente que nem todos são respeitáveis, muitos ofendem e prejudicam intencionalmente e nesse caso és pouco dada a dar a outra face.
Hoje na cadeira de dentista, quando perguntada por quem mais interessa, respondeste que vai tudo tão bem que até temes. Não mexe, não fala demais. Tudo o que queres é não perder os momentos de paz, alegria, ternura. Conheces bem demais os altos e baixos da vida para não estares desassossegada com o presente contentamento.
E os sonhos? Alimentas mais do que um. A escrita em regadio permanente nos últimos anos, o pequeno jardim em irrigação intermitente ao longo da vida. E os múltiplos interesses que mantêm vivo o ânimo. O gosto de saber mais, de aprender. Ainda não está fora de cogitação a História da Arte. Sempre de modo informal. Não és dada a etiqueta e rótulos. Cada vez menos permeável à moldura do conhecimento e das referências oportunistas e com mais vontade de saber o essencial.
Há momentos de desalento. Pois com certeza. E de irritação também. É questão de respirar fundo e desvalorizar o que não tem interesse nem préstimo. O que não acrescenta nada de benigno, antes gera crispação por desporto e frivolidade.
Houve tempos em que pensavas que a sujeira podia servir de estímulo, ao menos para distinguir e valorizar o digno de atenção. Como se precisasses de conhecer o lixo para saber valorizar o precioso. Afastas-te cada vez mais desse vício de estagnação que movimenta círculos de parasitas bem-sucedidos.
Para os contrastes chegam humanos com caruncho. O teu defeito e o de todos que não se têm por especiais de corrida com vontade de florescer à custa do embuste e do prejuízo alheio. O campo de imperfeição é vasto e rico. Tens muito por onde escolher. Escusas de pôr os pés no lamaçal miserável dos presumidos. É chão imprestável.
Esquece o lodo a que assistes. O embelezamento e glorificação da perversidade encapotada. O culto da dor e do sofrimento fictício para atrair atenção. O amor postiço. A compaixão e a solidariedade fabricadas com ardil para seduzir. A exploração à náusea dos clichés literatos para impressionar. A falsa amizade para usar e ascender.
O mundo é dos falsos, dirão os de resposta sempre pronta. Será, mas nem todos são iguais. E apesar do absurdo da vida ainda há escolha entre o lodo e o digno.
Areja nos teus devaneios. Segue como brisa ancestral. Saboreia a presença dos mais queridos, escreve quando te apetecer, lê, ri, nada, chora, sofre dores que valham a pena, cuida das tuas plantas e da tua casa, mantém a curiosidade, conversa, busca o lado mais luminoso e desempoeirado da vida e deixa as traças a morder a naftalina.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.