Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.
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Se nos sentirmos desalentados e críticos da superficialidade e injustiça do mundo actual, os conselhos do pensamento dominante mandam-nos mudar. Dizem-nos que o mal está em nós — sabotamo-nos — e que nos devemos corrigir. Precisamos renascer, qual Fénix, novos e mais fortes.
Mas de que alterações estamos a falar? De procurar conhecer, de aprender? De ajudar a defender mais justiça no mundo? De procurar o valor e o mérito? De não sucumbir às redes de trocas de favores e ao mimetismo dos elogios interesseiros? De não cair no facilitismo da obediência ao politicamente correcto que encobre a ofensa dissimulada ao digno de apreço? De não compactuar com as iniquidades e perversidades?
Não, o mais das vezes as recomendações são para que abdiquemos dos nossos valores — do melhor de nós mesmos — para nos adaptarmos ao meio.
Se o mundo subterrâneo que nos cerca é hostil e oportunista, devemos tornar-nos mais astutos para saber enganar como os demais. E saber fazê-lo numa aparência de rigor de que nos gabemos. Se o que fica à vista, se a superfície é de aparente humanidade e cordialidade, há-que aprender a fingir a bondade. Se tiver alguma espécie de ascendente, ou daí advier vantagem, há-que bajular quem mente, prejudica e ofende ainda que de modo disfarçado. Interessa o compadrio e a imagem, a mera fachada, a máscara.
Os sábios conselhos do pensamento dominante no espaço público passam por enterrar os bons sentimentos e tudo quanto seja verdadeiro. Substituí-los por imagem fictícia de qualidade.
Para que vingue a lei da selva há-que fazer uma lavagem cerebral à opinião pública, através do esbatimento das diferenças entre o ordinário e o digno. Equiparar o reles e o belo. Enaltecer a má-índole e denegrir o íntegro. Há-que conspurcar com difamações o nobre e promover o grosseiro presumido ao patamar de sedutor e interessante. E fazer tudo isto com insídia, para não deixar marca. Distorcer a realidade, matando a sensibilidade.
Para impor o estado de barbárie e a lei do mais forte há-que usar a retórica mal-intencionada, e fazendo crer que se trata de expor legítimos pontos de vista, experiências de vida, ou opiniões divergentes, deturpar palavras e pensamentos clarividentes e rectos, menorizando-as. Há-que enxovalhar a nobreza dos afectos, sujando-os. Há-que, a pretexto da defesa da liberdade de expressão, pugnar pelo direito de ofender. E impor a agressão. Legitimar a violência física e psicológica ostensiva ou encapotada.
Assim tem vindo o mundo a regredir nos valores civilizacionais para gáudio das audiências e das vendas por atacado de lixo mediático e digital. E assim têm vindo os agressores a ganhar protagonismo, audiências e dinheiro. E assim se tem vindo a normalizar a desumanidade.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.
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Adenda. Estou eu acabada de publicar este post, a zurzir contra mim mesma com as habituais inseguranças por ter sido moralista, e eis que pousa uma pomba no parapeito da janela do +1 onde me encontro sentada à mesa do computador. Talvez não deva duvidar tanto de mim. Talvez o que mais faça sentido e preciso seja no mundo actual, seja estar fora de moda.