A importância de duvidar de si mesmo

- factos, sensatez, honestidade e dúvida -

Nos dias correntes sacraliza-se a enumeração e dedução de factos e condena-se sumariamente o apelo à sensatez, às sensações e ao sentimento. O meu ponto é o seguinte: podemos criar narrativas falsas seja a partir do elencar dedutivo de factos seja através de juízos de valor vagos, não ancorados em ocorrências de que se faça a prova.

A partir do elencar e da inferência sucessiva de cinco eventos posso concluir pela veracidade ou falsidade de uma afirmação e construir uma narrativa realista ou facciosa. A partir do bom senso posso concluir por uma verdade ou mentira e acertar ou errar. Não é o processo ou o desenrolar dos factos que confere fidedignidade a uma ideia.

Os factos podem ser seleccionados, hierarquizados ou omitidos de modo a conduzir o leitor para uma conclusão pré-definida. Uma narrativa pode ser formalmente rigorosa e, ainda assim, intelectualmente desonesta.

O apelo ao bom senso, à intuição ou à experiência também não garante a verdade. Pode acertar, mas também pode reproduzir preconceitos, ilusões ou emoções passageiras.

A honestidade é fundamental para a isenção ou imparcialidade do argumento.

A credibilidade de uma conclusão não depende apenas da técnica utilizada, mas da disposição de quem argumenta para procurar a verdade em vez de defender uma posição. A honestidade não substitui os factos, mas os factos também não substituem a honestidade.

O drama é que estamos habituados à mentalidade do jornalismo que se arroga isento seja ou não honesto nos alicerces da argumentação. Como se o método não precisasse de bondade de propósitos. Todos os dias somos confrontados com distorção dos factos e manipulação das ideias no espaço público.

É fundamental aprender a duvidar das próprias posições e passá-las no filtro da bondade. E não usar a crítica da desonestidade intelectual sem conhecer a sua natureza.

A fotografia é do almoço de hoje. 

*

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

0