
É revelador ver como gente preparada, conhecedora dos dossiês, como se dizia há uns bons anos, se deixa seduzir e comprar pelas teias de promiscuidade do poder. Deslumbrados com o à vontade em matérias de diferente natureza, desde geopolítica a literatura, passando por economia e finanças, aparecem no espaço público — seja nos meios tradicionais de comunicação social, seja nos meios digitais — levitando sobre o real.
Fazem de conta que a sua sapiência luminosa não tem estrutura de suporte. Com fictícia discrição, estudada ao pormenor, nascem sábios e impolutos. Pregadinhas em figurinos de alfaiate de primoroso corte, as eminências pardas desprezam a verdade que as eleva à condição de ilustres debitadoras de retórica em corrente mediática. Papagueiam a mesma ladainha, cada uma na sua especialidade, havendo as dos sete ofícios. Brilhantes em todos os domínios, desvanecem o clubinho de fãs que cada uma congrega.
Nas pequenas florestas em que vivem, bolha como é moda dizer, não concebem a existência de gente independente que aja por critérios da razão, da emoção e da ética. De humanidade. Vivem em alcateia, vivem da caça e de cansar as presas, de cooperar para se alimentar e proteger mutuamente.
Imaginam que quem intervém, revelando pensamento e sentimento, mais do que opinião, se deixa seduzir por algum mentor seguindo a cartilha de um hipotético dono. Ou tomam gente independente e lúcida por lunática, ressabiada ou invejosa. Não acreditam no espírito livre, acostumados que estão a elogiar a independência de gente encostada que apenas tem mau feitio ou prosápia.
O desdém e incómodo que mostram pela verdade e pela denúncia da sordidez das relações de interesse e trocas de favor no espaço público são o seu calcanhar de Aquiles. Quanto mais tentam isolar quem observa as podridões e perversidades da elite fajuta, mais se denunciam. Quanto mais indiferentes, evoluídos e experientes se tentam mostrar, quanto mais atacam pela calada e se tentam demarcar da verdade simples e suja revelada, mais se traem e entregam.
Esta elite falsa e desprovida de consciência crítica sobre si própria preparou o regresso da extrema-direita e convive muito bem com ela, apesar das críticas inócuas que faz para aparentar decência. O espírito troglodita e o apelo à lei da selva é o mesmo, com a única diferença de estar dissimulada no caso da elite, reservada à concepção do mundo revelada na intimidade e com amigos. Isto é, professam a defesa dos mesmíssimos interesses da extrema-direita, chamando-lhe valores, de modo menos ostensivo para granjear apoios.
Não distinguem valores ou princípios de assalto ao poder e lucro. Pela calada todos os meios servem a alcançar estes fins. E para isso os influenciadores, preparados e conhecedores dos dossiês, dão ideia de seriedade ao pilhar argumentos de defesa de valores e dignidade para os colar às tais figurinhas pregadinhas que aparecem no espaço público e nos corredores do poder a papagueá-los apesar de representarem tudo menos nobreza de carácter e almejarem tudo menos o bem comum.
Retórica e imagem, esses ardilosos instrumentos de engodo, nas mãos das eminências pardas e das figurinhas públicas dos corredores do poder presas nos cordéis dos dedos de quem decide os destinos do mundo. Contentes consigo próprias. Ou nem tão satisfeitas, por terem o rabo preso no escaparate para todo o sempre.