A esperança

Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.

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Não me vou justificar pelo escarafunchar do umbigo. Nem pelo longo comboio de parágrafos que se segue. Se me continua a dar prazer, para quê conter-me? Para agradar aos outros? Aos tontos? O auto-flagelo dos cilícios é coisa sem o menor sentido.

Abro o post anterior para recordar o que queria escrever no início da tarde de ontem. Foi uma tarde feliz, a trabalhar mecanicamente e a pensar na vida de um modo tranquilo. Creio que foi um daqueles momentos de dádiva em que sem saber ler nem escrever encontrei respostas pacificadoras. Chamemos-lhe: encontro comigo mesma.

A selecção aleatória (aliás, do algoritmo) de músicas do YouTube embalou-me na felicidade. Ouvi muito Josh Groban, mas também antigas como Memory, do musical Cats, cantada por Barbra Streisand.

Em pensamento, revi pessoas que passaram na minha vida ao longo de muitos anos. Gente de quem há muito não me recordava. Veio o bom e o mau. Lembrei-me das pessoas a quem devo um pedido de desculpa e também das que me encheram de alegria por pequenos gestos ou palavras que ficaram registadas para a vida.

Disse pacificadora por compreender que os pedidos de desculpa que devo há vinte anos a amigos por ter desaparecido intempestivamente, resultaram de uma escolha de sobrevivência que tive de fazer. Não foi vez única. Também nos primeiros oito anos de trabalho bati a porta sem explicações. A verdade é que havia mais do que justificação, mas o mundo não é perfeito e eu muito menos. Além de defeito na telha, tenho amor-próprio e orgulho.

Outros distanciamentos, alguns com quase trinta anos, outros mais antigos ainda, outros mais recentes, não requerem desculpas de espécie alguma. É a vida normal a funcionar. É o mais normal que aconteça na vida de todos nós. Cada um tem a sua natureza e feitio e sempre senti a necessidade de seguir em frente, solta. A vida fez-me assim. Não fui forasteira ao acaso. Além de não ter a menor vocação para dar a outra face quando me ofendem. Mas estes últimos foram casos pontuais.

Regressando à tarde de ontem. Não me lembrei tanto dos pouquíssimos amigos que mantenho há décadas e que, juntamente com a família, são o meu esteio, mas mais dos que ficaram para trás.

Lembrei-me do R., que me deu a conhecer a música Vincent, de Don McLean, e sentado a almoçar comigo num restaurante onde eu ia muito há mais de vinte anos, do nada disse que eu tinha uns dentes lindos. Vêem como há coisas simples e inesperadas que podem ficar para a vida? E vêem como se pode identificar alguém e dirigir-lhe uma palavra de muito apreço sem expor ou quebrar a confiança? Sem gabarolice nem oportunismo? Sendo leal.

Lembrei-me da R., que, no momento em que eu mais precisava, há mais de 15 anos, quando mostrei a vergonha e peso e dificuldade em ultrapassar uma situação muito dura e traumatizante por que tinha passado, me contou ter vivido a mesma experiência e desvalorizou, dizendo que não havia nenhuma anormalidade, nem necessidade de me sentir diminuída e que a vida seguiria mais positiva.

Lembrei-me do J.; há menos de dez anos, com base na tese de que tirava de letra todas as pessoas pelo olhar, disse que bastou ver os meus olhos e expressão do olhar para estar certo que podia confiar em absoluto. E apresentou-me Caruso, de Lucio Dalla.

Lembrei-me do K. que, há oito anos, me mostrou como se pode ser focado nos próprios interesses e desligado do que se passa à volta e me deu a conhecer a Beth Hart.

Hoje lembrei-me deles. Guardo estes amigos passageiros com gratidão. Foram amigos, só isso. Como se fosse pouco. Em nenhum caso houve segundas intenções. Espécie de anjos na minha vida, com pés de barro, felizmente.

Ao R. devo um pedido de desculpa pela intransigência opinativa, mau feitio e, lá está, por ter desaparecido. O mesmo pedido de desculpa que devo à A., amiga dessa mesma altura e envolvida num projecto comum, a que pus termo intempestivamente.

Na tarde de ontem a sensação boa veio também de pensar em coisas que me deixam feliz. Sentir alegria e vivacidade na voz da minha mãe, a quem agradeci no fim-de-semana passado por me ter ensinado a organizar a vida em termos práticos, que tanta paz nos pode trazer. Sentir o meu pai contente, ao chegar de uma almoçarada bem passada. Presenciar o tom doce e jovial na gargalhada do Nuno, cuja doçura me fez mudar da água para o vinho e acordar todas as manhãs com ternura e boa-disposição. O ronronar e as meiguices do Ritz no meu colo, a pedir mimo com a patinha na minha cara.

Ontem e hoje o meu espírito levita. É para compensar os dias maus que pesam chumbo. Agora tenho dificuldade em descer à terra. Nem às notícias presto atenção. O Nuno vai-me puxando para a Terra, contando o que se passa no mundo através dos noticiários.

Antes de ir às matrículas, conto mais isto. Na tarde de ontem, estava nos tais devaneios a trabalhar, e o Nuno envia-me uma mensagem de WhatsApp, a justificar a razão de há 26 anos me ter dito uma coisa que eu considerei afirmação de gabarolas. Chorei por perceber como há coisas que podem atravessar 26 anos em silêncio e significarem isto: o que tu pensas de mim é importante e o teu julgamento fere-me. Chorei por perceber que o tinha magoado sem me aperceber, até porque tinha e tenho profunda admiração por ele. Voltei a dizer-lhe pela milésima vez que tenho orgulho nele. E tudo isto: o choro disfarçado, a troca de mensagens e a emoção, foram intercalados com o trabalho e uma resposta ao colega de gabinete acerca de coisas que precisavam ser feitas naquele momento. O mundo não pára, nem nos momentos mais importantes. E não há mal nisso. Não diminui o essencial da vida, desde que tenhamos consciência. É uma paz que encontramos com a maturidade.

Quanto às matrículas, o que há a dizer? Como não tenho o juízo todo, leio o que me rodeia. Há quem leia livros em catadupa, eu leio o meio ambiente. O movimento e o canto dos pássaros, as buzinas e as matrículas. Imaginem abrir a vossa memória desde a mais tenra infância até ao presente e fazer associações às palavras e números que se podem formar com as matrículas com que se cruzam. Há quem fale com os animais e as árvores, como vivo no século XXI (sem querer tinha escrito XIX; fugiram-me os dedos para a verdade), falo com matrículas. Isto é, falo comigo mesma, como se falasse com o universo. Encontro explicações para tudo e, como podem prever, as mais estapafúrdias. Os temas das conversas desconexas vão desde a vida pessoal, até à actualidade, ao destino do mundo e ao sentido da vida. Sabem aquela anedota dos psiquiatras do “falar com as paredes é normal, só nos consultem se elas responderem”? Pois, há fases em que não só falo com as matrículas, como elas respondem. Umas vezes divirto-me como uma preta com o que descubro, outras assusto-me com as perversidades contidas no íntimo da minha mioleira. É o tal assombro de ser verdadeira e pura comigo mesma, para o melhor e o pior. Sem medos.

É um encontro comigo própria e uma forma de libertação inacessível a muitos. Aquilo que é tido por handicap para o pensamento dominante, pode afinal ser um dom. Mas a liberdade tem um preço elevado. À conta disto, quantos romances poderia escrever? Dezenas, com certeza. E quantos vou escrever? Poucos ou nenhum, muito provavelmente. Neste momento, isso não me preocupa nem um pouco.

Se lido bem com isto? E com tudo quanto lhe está associado? Tem dias. Em regra, sim. Há alturas em que me divirto imenso. É como ter uma entertainer dentro de mim mesma, que me acompanhou a vida toda. Em regra, lido bem. Aprendi a tomar as providências necessárias para não perder o pé.

Se sou feliz ou infeliz? Tendo a ser feliz, mas tenho momentos de profunda infelicidade que, às vezes, duram apenas horas. Em regra, mesmo nessas alturas, tenho consciência de que é passageiro e tento contrariar.

O que me tem salvado? A minha própria sensatez e a infinita capacidade de regeneração, mas sobretudo a suavidade e compreensão do Nuno. Um amparo que é como uma graça divina, que eu não sabia que podia existir. A explicação? Ser compreendida. Como se chama a isto? Amor.

Neste momento, a Smooth FM canta: Tristeza não tem fim, felicidade sim. Lamento, mas sou do contra. A felicidade tem fim e a tristeza também, mas renascem ambas a cada instante. É preciso é saber apanhar as ondas certas. E é precisa sorte.

Com quem falo eu? Convosco e comigo mesma, eternamente.

Bom feriado ou dia santo, conforme preferirem.

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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