A beleza de uma palete de cores e a pretensão das estrelas

- gosto, estética, consciência -

Na época do liceu, na adolescência, vi numa revista uma camisola que me encheu as medidas. Manchas em cores e tons muito suaves que se desvaneciam entre si sem fronteiras definidas. As cores lembravam as das telas de Monet, o padrão parecia a própria palete das tintas. Uma coisa etérea.

Disse à minha mãe que gostava de uma camisola de tricot assim. Explicou-me que não a conseguia fazer. Pensando a esta distância, a peça devia ser fabricada por máquina ou até seria mesmo estampada. Não estou certa.

Sei é que o meu pai atalhou conversa e recordou que tinha uma amiga com muito jeito para isso. E a dita convencida do seu talento propôs-se fazer uma camisola, insistindo numa com estrelas. Fez-me uma peça em fundo branco e com estrelas azul-porto. Medonha. A fazer lembrar as vestimentas das cheerleaders do futebol americano.

Faço um intervalo aqui para dizer o seguinte: há quem não tenha paciência para memórias na primeira pessoa. A aversão a quem mostre interesses e gostos próprios, não alinhando no papaguear das ladainhas do espaço público, leva a acusação de egocentrismo e falta de capacidade de despertar curiosidade. Quando o que está em causa é a repulsa do ouvinte ou leitor em ver-se reflectido no espelho.

Nada pior que não contar uma intriga que envenene ou crucifique os malquistos da sociedade. Nada pior do que não alinhar em enaltecer as modas e frases feitas inconsequentes do espaço público. Essa é a cola das audiências. Agora detalhes da vida quotidiana que revelem como somos nós próprios, assustam. Causam embaraço e por isso rejeição e vontade de os descartar com uma crítica justificativa palerma, embrulhada numa citação descontextualizada de um qualquer ilustre. É a forma de impressionar dos medíocres.

Quem tem necessidade de provar que viver é estar em permanente acção, a julgar e a intrigar quem se move na actualidade, não aceita que alguns saiam do radar de influência da imbecilização mimetista do espaço público, onde quase todos anseiam por estar informados e a consumir e exibir os mesmos itens comerciais, de entretenimento e de cultura.

Mal na fotografia antiquada ou desalinhada fica quem tem vida e interesses próprios e se basta, sem necessidade de alimentar este monstrinho perverso promovido pelos interesses económicos das matilhas de influência medíocre que constituem as elites fajutas das referências mútuas. Para companhia e para público precisam como de pão para a boca de gente descerebrada convencida de estar muito sintonizada com a actualidade informativa e intelectual. E sobretudo de gente sem âncora na própria vida e valores, de modo a poder ser manipulada. Interessa gente com intriga, mas sem história.

Voltando à camisola. Assim que chegou a casa meti-a no fundo do armário e passaram anos sem que a vestisse, até a ter dado nova. Odiava-a. Sabia muito bem o que queria e aceitava e o que detestava. Não é por me tentarem convencer que qualquer coisa é bonita ou melhor, que desisto de acreditar na beleza e no valor em si. E mais do que tudo não aceito que desconsiderem o meu gosto e os meus valores para me venderem fancaria.

Há quem oiça e leia tentando descobrir nas entrelinhas as falhas, os subentendidos. Ávido de bisbilhotice e segundas intenções. Há quem leia de peito aberto.

Vem tudo isto a propósito do meu gosto por roupa de cama e da capa de edredão que comprei hoje com motivos florais. Há-as de diversos padrões e tons, umas horrendas para meu gosto, outras bonitas. Escolhi a mais graciosa, muito parecida com outra que tenho cá em casa, para substituir uma capa de edredão que estraguei no Inverno passado. Tingi-a na máquina de lavar. Tudo muito desinteressante.

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Hoje é noite de São João. Bom São João.

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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