Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido. * No caderno da viagem na Singapore Airlines, que referi há uns dias, encontrei uma tentativa de desenhar a janela do avião e o delta da ponta da asa, e mais umas pequenas notas sobre a forma como a perspectiva muda em função de vermos com um ou os dois olhos. Apesar de nunca ter sabido desenhar, é uma espécie de fixação. Por isso me atraem tanto os artigos sobre pintura e desenho. Aprende-se muito acerca da vida enquanto se lê instruções e explicações das artes plásticas. Mas isso fica para amanhã. Aos catorze anos, quando comecei as aulas de filosofia no liceu, desenhei uma espiral em pontos amarelos, laranja e vermelhos, cobertos com tinta-da-china preta que raspei depois e apresentei um trabalho com a legenda: o mundo é um caos onde o homem julga ter concebido o cosmos. Achei-me a pessoa mais inteligente do mundo pela descoberta. Não sei se à época fui influenciada por alguma leitura. É bem possível que tenha sido por várias. E mais tarde vi pensamentos no mesmo sentido, anteriores e posteriores. Nada descobrira. Afinal dissera uma banalidade própria da adolescência. Própria de quem esmiúça superficialmente as ideias e conclui apressadamente pela angústia e a confusão, o mais palpável. Na altura dizia-me ateia, o que não é despiciendo para o caso. Lembro-me agora que um colega e amigo me acusava de me estar a armar com o ateísmo. Na altura senti aquilo como ofensa, porque não acreditava mesmo na existência divina, mas vendo à distância, sob uma perspectiva retorcida, ele teria razão: estava a fingir-me de auto-suficiente. A adolescência foi das épocas mais felizes da minha vida, estava rodeada de muita gente, era gostada e gostava, era muito estimulada e alegre. Apesar de um pouco fora da caixa, encaixava. E, claro, como não podia deixar de ser dava o ar de incompreendida. É tão fácil fazer as vezes de infeliz quando se é feliz e plena. Transpirar as angústias do existencialismo quando se ama e se é amada e compreendida é arte que conduz ao reconhecimento fácil. A época em que tinha vários amigos e me dedicava a ser confidente de dramas sentimentais de amigos rapazes e raparigas, a amparar conversas de quem pensava no suicídio ainda sem conhecer o que é esse desespero de querer o fim do sofrimento atroz, a participar em conversas fúteis, mas também em debates de ideias fecundos, a cantar na rua em grupo. A não valorizar as aulas e sobrevalorizar tudo quanto estava para lá da aprendizagem convencional. A descobrir a alegria da ternura real e sofrer com as paixões platónicas. Enfim, a vida de adolescente é propícia a tiradas filosóficas cliché. Curiosamente, e para encurtar ideias, as mesmas que fazem furor como lugares-comuns intelectuais. Os tais supostamente muito adultos e preparados. Vigentes e dominantes. Nada como estar entrosado e ser bem aceite para fazer as vezes de incompreendido superiormente preparado sob o ponto de vista intelectual. Um logro. Vá, um logrinho, com a ternura que a fase da adolescência inspira. É uma fase, logo passa. Com sorte hão-de crescer. Um dia, quem sabe? Isto de desconstruir os clichés da incompreensão de adolescentes, intelectuais e artistas não é de fácil digestão, pois não? Uma maçada. Desculpem qualquer coisinha. Em contramão Fui educada em mesas de jantar onde havia toalhas bem passadas e travessas, talheres certos e copos dispostos na ordem correcta. Hoje trago os pratos para a sala, servidos directamente dos tachos. Fui ensinada a não usar termos e expressões plebeus nem vernáculo, hoje uso todos quantos aprendi com amigos no ensino público, nos locais de trabalho com colegas que viveram ou vivem em ilhas e bairros sociais. E com todos quantos fui conhecendo ao longo da vida. Fui repreendida por não me dar com gente com a minha educação, toda a vida me dei com gente de todo o género e feitio e tenho especial inclinação por gente invulgar, gosto de ser estimulada. Passei a vida a ser criticada e satirizada pelas minhas opiniões e escolhas. Ao contrário do que se possa pensar não estou a condenar a educação que tive, pelo contrário, foi ela que me fez quem sou e entendo-me bem com o que sou. Em casa na meninice e juventude ensinaram que cada um traça o seu caminho e deve ter força de carácter para seguir o seu rumo. Deve valer por si e não viver à custa do esforço alheio. Não me educaram nas evidências e lugares-comuns, mas pela dificuldade. Deram-me liberdade de escolha e, pela negativa, incitaram-me a impor a minha vontade conhecendo o todo. Sigo em contravenção num mundo dominante em que por mimetismo se quer dar o ar do que é uma mesa bem-posta, mas não se sabe o essencial; em que se usa vocabulário sem lhe conhecer a causa e sentido; em que se criam laços e amizades não por afinidade ou curiosidade, mas por oportunismo, pelo deslumbre interesseiro da troca de favores, ou para trepar sobre os ombros alheios. O desenvolvimento pessoal Na semana passada vi uns vídeos do YouTube muito esclarecedores. O chamariz era qualquer coisa como isto: cinco provas de que tem um QI superior. Fiquei a perceber onde nascem os perfis desenhados à medida para parecer uma mulher ou um homem inteligente. Na psicologia internáutica. Reza assim: gostar do silêncio, gostar da noite, falar sozinha, ser desarrumada, ser rápida na ironia. É como a mesa de jantar bem-posta. Eu que passei a infância, a adolescência e juventude acordada nas madrugadas, procurei o silêncio, falei sozinha e vivi na desorganização dos cadernos escolares e emails profissionais, amadureci e percebi que parte disto paga-se com a saúde. Prescindo da imagem de QI elevado para seduzir tontos. Ordem na vida, sonos regulares, organização e boa convivência com os próximos são essenciais a uma mente saudável. Muito enfadonho. Nada sexy. É um pouco como o meu gosto pelo balandrau, o vestido sem formas, ou os jeans e os camisolões. Seria ridículo aos 52 anos querer dar o ar de menina inconsciente como forma de atrair atenção. Como quem veste um vestidinho que marca bem as formas e deixa a descoberto parte do peito, ou uma blusa decotada e artisticamente mal enfiada no cós das calças a dar aquele ar descomprometido de intelectual presumida às escondidas. E dizer piadinhas sofisticadas para cativar a atenção dos círculos da suposta maturidade intelectual, a tal culta e adulta. Não há pachorra para mais logros. Estes já não são logrinhos, aos 52 anos já não passaria, já estaria cravado na personalidade. Viver das aparências pode ser um modo de estar. Cada uma escolhe o seu caminho. O meu não é em definitivo o da sedução, das audiências e do sucesso. Das memórias e da opinião Seja no pensamento dos dias correntes, seja na memória noto cada vez mais a ditadura da opinião dominante. E cada vez mais a dissimulação e a manipulação da opinião para atingir quem tem valor. Quanto menos mundo, mais se desdenha da opinião alheia e menos se autoriza a que os outros expressem o que sentem e pensam livremente. Vejo gente a promover a vacuidade e mediocridade standard e a desdenhar à socapa de quem pensa, trabalha e cria com mérito, a acusar nas entrelinhas de banalidade e generalizações quem se manifesta, num primeiro momento, para depois usar as ideias desdenhadas como próprias. De repente, são tocados pela genialidade, por osmose da memória alheia. É muito divertido assistir ao desplante. É o cúmulo da desonestidade. Especialmente repugnante em velhos aprendizes de escroque e larápios que dizem defender a liberdade de expressão. Referem-se apenas à liberdade deles e da matilha amestrada e, especialmente, às ideias pilhadas ou mimetizadas. Porque as originais, essas são proibidas ou desrespeitadas. Apesar do sucesso e das audiências não as compreendem até renderem lucro. Não as sabem conceber, nunca saberão criar algo de raiz com cunho próprio. E essa é a sua angústia. E é neste contexto que nos deparamos com a maledicência contra políticos livres, contra académicos e comentadores lúcidos e com competência firmada, contra autores que não compactuem com agressões e violações. Pela mão dos mesmos que vivem da promiscuidade entre os meios de comunicação social, as redes sociais de referência e as redes de influência do poder político, desportivo e cultural. Um mundo sórdido, feito de gente suja. E é impressionante vê-los espigar no espaço público. Alguns começam bem-intencionados, gente banal com preocupações comuns. Eles e elas. Gente igual a tanta outra, com família, amigos, trabalho e sonhos. Uns com mais preocupação com o que se passa no mundo, outros menos. Uns deslumbram-se com a política, com a ambição de um lugar, um encosto no vibrante mundo da governação. Passam a dedicar-se à filosofia, às viagens e à intriga política com o mesmo afinco, numa estranha tecelagem de interesses que os elevará a cargo público. Outras dedicam-se a mimetizar os curadores culturais e a fazer, através das referências mútuas, o papel de claque de vips que paguem com amparo, alcançam sucesso no espaço público e editam os tão almejados livros com a bênção das matilhas promíscuas do métier. Outros vivem disso a vida toda, nos jornais, nas secretarias de estado, nas editoras, em qualquer poiso conveniente do espaço público. Gente que não gosta de políticos livres, nem de quem pensa de modo independente e lúcido, nem de artistas que criem com verdade. Não cabem no seu mundo, nas suas redes de interesse e trocas de favor. E assim deve ser. Cada macaco no seu galho. O lugar dos homens e das mulheres livres não é nas redes da promiscuidade. Tudo previsível, como vaticinei em devido tempo. Tudo está bem quando acaba bem.
A adolescência e os clichés
A adolescência e os clichés, em contramão, o desenvolvimento pessoal, as memórias e a opinião