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Leitura no Medium
São nove e vinte e quatro da noite de Domingo quando escrevo o diário ao som da Smooth Fm e, pecado, bebo whisky. Escolho para abrir um artigo de 2023, de uma cartoonista do The New Yorker — característica feliz do Medium é disponibilizar e destacar artigos com vários anos. Já sabem que podem consultar o post original no separador Activity.
A autora enceta o artigo a questionar o que é o estilo artístico, para nos dizer que nem sempre decorre de decisão consciente. Desenvolve-se ao longo do tempo. Conta como em criança foi influenciada pelo cartoonista James Thurber e suas personagens, apesar de não compreender as legendas. Ao longo do artigo menciona vários artistas, com actividade desde a década de 30 do século passado e ascendência no seu percurso, referindo as peculiaridades que caracterizam o trabalho de cada um, como o fascínio pelo pêlo materializado numa confusão nervosa de traços de um cartoonista, ou da tendência macabra de outro. Ter influências não é imitar, significa assimilá-las e transformá-las em algo especial. Conta ainda como ao longo do percurso privilegiou sempre a linha ou o traço simples, apesar de nos anos 90 ter usado aguadas carregadas (aguarela). E revela ainda a tendência para usar humor com mulheres mordazes por vezes à custa dos homens. Explica que a verdadeira originalidade de um cartoonista não prescinde das influências, mas transforma a própria experiência e a forma de ver o mundo numa expressão singular capaz de fazer rir.
Sem demoras
Sem perder tempo em explicações, nem entrar em argumentações inúteis, digo que não sou dada a manifestações, mas as que decorreram no Porto e agora em Lisboa e que, encetando com a questão da crise na habitação, foram abrindo o leque dos motivos de contestação, fazem todo o sentido. Mais. Fazem-me sentir menos só face à insensibilidade e mercantilização do espaço público que se impôs nos últimos anos.
Dia-a-dia
Fomos passar o fim-de-semana a Almada. Ontem sair do Porto foi complicado por haver polícia em vários pontos da cidade a vedar a passagem. Não fosse uma dica do motorista da Bolt e perderíamos o comboio. As viagens correram bem, salvo enregelarmos com o ar-condicionado. Para cá dormi e li poesia de Miguel Torga, começando pelo início, o que revela que sistematizei e envelheci. De manhã ainda tive o rompante de abrir ao acaso, mas depois de perceber que foi o próprio poeta que organizou a antologia, compreendi que devia respeito ao caminho de uma vida. No comboio ainda deu tempo para no bar sermos tratados como príncipes pela funcionária da CP.
Ontem o Nuno matou saudades da mãe e do primo. Hoje, como não arranjámos o Intercidades do final da manhã, aproveitámo-la para tomar café no Central e passear um pouco na avenida principal. Mais uma vez pude confirmar que na zona de Cacilhas, onde vive a mãe do Nuno, e um pouco acima, existe todo o tipo de comércio, e algum aberto mesmo a Domingo. Fomos a uma feira do fumeiro comprar um queijo de ovelha da Soalheira para dar à minha sogra — que também nos brindou com um alentejano. Tentámos entrar na loja Espaço Casa, mas saí num ápice por achar as estantes muito próximas e pejadas de artigos que partem, logo perigosa para quem não vê. E, à falta de atravessar o rio para ir à feira de alfarrabistas do Chiado (temi as confusões nos acessos e atrasos por causa das manifestações), entrámos na Bertrand. Trouxe a Antologia Poética de Miguel Torga, que muita falta fazia cá em casa. Na caixa fomos bem atendidos por uma rapariga nova e simpática que nos explicou as vantagens promocionais das lojas de rua.
Antes de virmos embora, o Nuno tocou piano; a pedido da mãe algumas melodias brasileiras. E fui presenteada com uma fotografia, que não conhecia, do meu pianista aos quatro anos; feliz, em Cascais, ao telefone. De mansinho está a infiltrar-se cá em casa com a história toda. Pousei junto ao cubo das minhas fotografias com idade próxima.
Deixo as imagens destas vidas de hoje.




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Obrigada por terem lido. Boa semana.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.